9 de jun. de 2014

Análise: The Banner Saga


Em uma era em que os deuses estão mortos e o sol não mais se põe, uma onda sombria de cavaleiros negros surge em contraste com a geada branca que vinga na região nórdica. Prepare sua caravana e o estandarde, racione um estoque razoável de suprimentos e convoque dentre o seu povo os melhores guerreiros que puder, pois partirás para uma marcha incansável sobre a terra gelada dos varls, e quando as trombetas e tambores tocarem, saberás que é hora da batalha. Esse é The Banner Saga, um game que nos leva direto para um mundo completamente novo baseado na cultura nórdica, onde podemos encontrar seres de raças novas e uma mitologia única.



Game Tático-RPG produzido pelo estúdio indie Stoic, e financiado com sucesso na plataforma de crowd funding muito conhecida, a Kickstarter, exclusivamente para PC e Mac, ainda. É relativamente recente, pois foi planejado no ano passado e lançado agora no inicio de 2014. O projeto arrecadou $723.886 obamas de um meta tímida de apenas $100.000 dólares. Ou seja, só por ai já dá pra saber que é um indie game de sucesso, mesmo assim vou dizer a nota do site Metacritic: 82 de 100. Os gráficos simplistas e animados somados ao universo do game também ajudaram muito, além de que o game tem uma estória imersiva e madura. É como os próprios desenvolvedores dizem: esse é um jogo direcionado para apreciadores de arte, história e estratégia

Anões e elfos que nada!
Arte conceitual do jogo
Apesar de ter forte influência da mitologia nórdica/viking, The Banner Saga nos trás um novo cenário com novos deuses e uma estória única nesse campo temático, onde existem humanos e seres de outras raças exclusivas que se degladiam e aliam entre si. Sendo assim, não se trata de uma fantasia genérica, o game tem uma identidade própria e uma mitologia vasta e intrigante, que alimenta uma narrativa densa.

Um bom exemplo de sua identidade vem de uma raça encontrada no jogo conhecida como varl. Primeiro, nada de elmos, eles tem seus próprios chifres pontudos; segundo, são gigantes e bravos guerreiros. Os valrs são uma raça criada pelos deuses a partir do cruzamento de animais e humanos. Muitos são orgulhosos e se consideram melhores que eles, e por conta disso geralmente não gostam da raça um do outro. E é com esse clima de desentendimento, favores e falsa amizade que o game começa.

Impostos, gangue de ladrões e aliança

Tudo começa bem simples, ao passo em que oportunamente uma caravana é montada na vila portuária de Strand, entre varls e humanos, onde aparentemente irão fazer uma marcha simples rumo ao reino dos varls para firmar uma "aliança" entre as raças, e alguns com seus próprios motivos também. Até que no meio da viagem seu grupo fica sabendo do retorno dos dredges, rivais ancestrais dos valrs. São seres na maioria colossais, porém, impuros e muito perigosos, criados a partir de um deus invejoso pela criação de outros deuses, por isso são bizarros e anormais. Em contraponto, do outro lado do continente, um segundo grupo é formado. Rook é um humano caçador e campestre, e de repente se depara com a difícil tarefa de liderar seu povo até um local seguro, primeiramente, pois encontram dredges rondando pela primeira vez nas redondezas.

Humanos e varls então se veem em uma situação onde são forçados a criar uma aliança para limpar as terras do norte da impureza do dredge, ou pelo menos sobreviver ao máximo que puderem. E assim você acaba comandando duas caravanas de guerreiros, em momentos e lugares diferentes, liderados por personagens variados, dependendo das suas escolhas, essas que aliás são um fator decisivo em sua estratégia, seja nas batalhas ou em suas longas viagens...

Cada decisão é valiosa aqui

O game basicamente é uma grande marcha entre vilarejos, florestas e reinos, onde você é guiado em um enredo linear baseado em suas escolhas, já que você não pode controlar os personagens fora da batalha, e ainda tem que assistir literalmente enquanto sua caravana viaja pelas paisagens maravilhosas daquele mundo! (em uma velocidade acelerada, claro) Como em um RPG clássico, surgirão perguntas e impasses que lapidarão sua jornada em uma estória com acontecimentos únicos. Os únicos momentos em que você poderá cessar essa marcha é quando você acampa, ou está em uma cidade ou ainda em uma batalha.

Você pode acampar a qualquer hora durante as viagens, para descansar e recuperar a moral de seu povo, e ainda recuperar ferimentos de guerreiros abatidos em batalhas. Porém, descansar gasta mais suprimentos, principalmente se o número de sua caravana for muito grande, e é aí que encontra um dos principais impasses do jogo: conseguir manter a população, com um número cada vez mais escasso de provisões, caso contrário você vai perder gente de fome. Lembrando que é extremamente importante manter o número de seu povo, pois irá afetar diretamente no nível dos confrontos que forem surgindo no caminho.
Um pequeno momento de descanso
As marchas irão ser longas e quase incessáveis pelas terras geladas, e você vai ter que tomar muitas outras decisões importantes, de situações das mais inoportunas possíveis, desde briga de bebuns a roubo de suprimentos. Muitas vezes inclusive você se verá encurralado para escolher entre: abandonar o posto para salvar rações, manter a guarda para evitar o mesmo erro e perder de vez a comida, ou ainda salvar um guerreiro importante que estava envolvido no caso e perder todo o resto. Sendo que nem sempre isso vai ficar muito explicito no diálogo.

Somado isso tudo ao enredo denso, o game por vezes pode se tornar maçante, e é por isso que o seu maior fator de diversão pode muito bem ser reunido em apenas um momento (não aleatório): nas batalhas.


Táticas como em um tabuleiro de xadrez

O game todo é focado em estratégia, tanto fora quanto dentro das batalhas, essas que por sua vez são no modo tático e por turnos. Lembra muito clássicos como Final Fantasy Tactics ou Fire Emblem, pois traz várias classes e algumas raças diferentes, habilidades especiais, os personagens também sobem de ranking, etc. Mesmo assim, o tactics de The Banner Saga traz alguns elementos novos.

O primeiro dele é o fato de que a força física de cada personagem é literalmente aquilo que o mantém vivo, pois o mesmo valor que calcula a sua força (strength) é também o que define quão vivo está seu personagem (HP), ou seja, quanto menos força física, mais fracos vão ser os golpes disferidos no inimigo. Também, cada guerreiro tem um atributo de defesa que conta como se fosse a armadura do mesmo, e é obvio que a diferença dela com a força do atacante é que define o dano físico.


Acontece que tem guerreiros com defesa muito alta, nesse caso é necessário atacar primeiro a armadura dele até que a força do atacante seja maior que o valor da armadura, só assim você poderá causar dano físico. Ou seja, não é uma questão de sair querendo atacar adoidado (como vikings geralmente fazem), as vezes é necessário enfraquecer suas defesas para trilhar o caminho da vitória. E é ai que se encontra o segredo das batalhas desse game: ter um equilíbrio entre atacar a armadura e a força vital do seu inimigo.

Também, diferentemente de outros jogos táticos, não existe um valor de iniciativa para cada guerreiro, os turnos sempre ocorrem alternados entre o seu e de seu oponente. A única coisa que você pode controlar é a ordem que seus personagens vão agir, antes e fora da batalha. Lá você também pode usar seu renome para upar o ranking e os atributos dos personagens ou equipá-los com itens variados. Você ganha renome ao fins das batalhas e em atos corajosos de um bom líder, no decorrer do jogo, ou seja, seu renome é o seu "dinheiro".


Outro atributo interessante é o Willpower, que traduzido para nossa língua seria algo como "força de vontade". Primordialmente são gastos para usar habilidades, mas também podem ser usados para fazer movimentos extras no campo de batalha, ou ainda tirar mais dano em um golpe. No entanto, é importante economizar, pois esse atributo não recupera em uma mesma batalha a não ser que o personagem descanse por um turno sem fazer nada, ou por outro motivo especial, como derrubar um oponente.

Essa "força de vontade" dos personagens também é afetada pela moral da sua caravana, isso significa dizer que se a moral do seu povo anda em bom estado, você entrará nos embates com mais willpower que o comum, e vice-versa. Por isso é importantíssimo cuidar bem do seu povo fora das batalhas. E não se preocupe se o seu personagem cair durante os duelos, ele não morrerá, apenas ficará com ferimentos que poderão ser curados ao descansar nas tendas fora da batalha. Caso não faça isso o guerreiro machucado entra com pena de força vital na próxima batalha.

O campo de batalha é tão bem feito que os coadjuvante parecem que vão pular dentro a qualquer momento
Você está notando a complexidade do jogo? Se ficar machucado tem que descansar, mas descansar gasta suprimentos, e se descansar demais pode perder comida necessária para a viagem, o que baixa moral da caravana se acabar, porém, sobe se o povo estiver descansado. E é a mesma moral que define o quanto de "força de vontade" seus guerreiros vão ter em campo de batalha. Isso só deixa claro que as viagens são tão importantes quanto as batalhas.

E para não esquecer, Alex Thomas foi o designer responsável pela game design (entende-se jogabilidade ou "regras do jogo", em português), ou seja, foi ele o guia principal da construção das regras e mecânicas do jogo, inclusive da dificuldade.

Uma obra prima, sem dúvidas

Nesse ponto, nem preciso lembrar que a arte é um dos pontos fortes do game, basta notar que o cenário do é composto por paisagens estupendas e estilizadas, além claro, dos personagens, "culpa" do artista Arnie Jorgensen. A arte lembra muito os filmes da Disney da década de 50-70, justamente porque foi inspirada no artista Eyvind Earle que trabalhou em Sleeping Beauty (A Bela Adormecida). As animações e personagens também foram trabalhados inicialmente a mão, como nos antigos estúdios de animação, mais uma referência a Disney.

E não é só isso, os personagens são bastante cativantes pela simplicidade, nada de sombras realistas e efeitos de volume, o foco é o traço estilizado, tanto em seus sprites quanto nas animações de batalha, pois são fluidas e simples. Os personagens também se movem durante os diálogos, como se o vento frio e gélido estivesse realmente ali. O movimento de suas vestimentas, pêlos e olhos deixam isso muito claro. Isso sem contar o efeito da névoa e neblina que paira sobre tudo enquanto, ao mesmo tempo que o som de burburinhos, talheres, barris e tilintar de armas enche nossos ouvidos, dando uma impressão realística do cenário.


Austin Wintory fica a cargo de escrever e orquestrar todo o soundtrack do game, o mesmo cara por trás de Journey (Ps3). Juntamente com ele estava a sinfonia Dallas Wind Symphony e outros solistas. Uma trilha sonora maravilhosa de encher os ouvidos de alegria e o coração com ansiedade por um mundo o qual nunca existiu realmente.

Mais um game indie de sucesso!

Apesar de toda magnitude do jogo, o que mais me impressiona é o fato de três caras que trabalhavam na BioWare saírem de uma empresa relativamente grande para trabalhar em um jogo que eles pudessem se divertir, e claro, buscando lucrar muito com isso. E deu certo, em menos de um ano o jogo já estava financiado e quase pronto. E é o que vimos agora, uma obra prima.

No final das contas, nem preciso dizer se vale a pena ou não jogar esse game, os fãs de estratégia e arte já sabem a resposta. Em três palavras consigo definir The Banner Saga: simples, belo e impactante. É realmente de levantar a bandeira e tirar o chapéu. E o melhor de tudo para pessoas como eu, que já é fã, é que tudo indica ser essa versão apenas o primeiro passo de uma trilogia que ainda está por vir.

Ah, ainda há um modo multiplayer chamado The Banner Saga: Fractions, e está disponível gratuitamente na Steam, essa que é atualmente a distribuidora oficial do game, porém, os desenvolvedores planejam uma versão para PSN e XBOX Live, só nos resta aguardar por essa e mais outras novidades.

The Banner Saga
Produtora: Stoic
Plataforma: PC e Mac
Distribuidora: Steam
Lançamento: Fevereiro de 2014
Gênero: Táctics, RPG
Jogadores: 1 Player



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