16 de ago. de 2014

Devaneios: A dicotomia dos Survival Horrors e suas novas promessas


Equilíbrio entre ação e quebra-cabeças, munição limitada, arsenal pouco poderoso, protagonista vulnerável, sentimento de isolamento, história contada através de documentos encontrados pelo cenário, imagens de violência, sons dinâmicos acionados em momentos inoportunos, etc - essas são as principais características consideradas essenciais para um bom game de horror e sobrevivência (notem que não incluí sustos, pois esse é um elemento consequência de todo o resto, susto por susto não conta).

E todos esses elementos estão presentes no início dos games deste gênero. Bom, não exatamente no início, mas no que precede a época de ouro dos jogos de horror: mais ou menos nos anos 90. Uma era em que clássicos como, Alone in the Dark, Clocktower e Resident Evil surgiram, nos forçando a perder muito sono quando eram jogados. Resident Evil foi inclusive o primeiro jogo a usar o termo Survival Horror em seu market, pela Capcom em 1996. Esse foi um tempo em que o terror nos games era levado muito a sério, pois eram bastante influenciados pela literatura (H.P. Lovercraft) e telas de cinema (filmes orientais de terror). Outro fator que incentivou o crescimento do gênero foi o "boom" da nova geração de consoles 32/64 bits (Ps One, N64, etc), ou seja, nova capacidade gráfica, essa que ainda era muito limitada, porém em um ponto exato permitindo mais liberdade de criação aos desenvolvedores e ao mesmo tempo proporcionando sustos aos jogadores justamente por essa imperfeição. Os cenários pré-renderizados de Resident Evil tinham uma câmera fixa, por exemplo, e por esse fato não sabíamos exatamente o que nos esperava quando passávamos de uma tela para outra, o que fez muitos marmanjos por ai a fora soltarem gritos histéricos, provavelmente.

Uma das cenas inesquecíveis em RE

Resident Evil, que por sua vez foi o predecessor de muitos outros títulos bons que viriam a frente, como as franquias Dino Crisis (com a também participação de Shinji Mikami de RE), Parasite Eve, e até seus sucessores Resident Evil 2, etc. O "hóspede maldito" foi tão bem sucedido nessa época que inspirou mais de cinco versões da franquia no cinema (alguns muito infiéis a série por sinal, mas essa é uma outra história). E nisso, não bastando a boa variedade de títulos bons do gênero que estava surgindo para Playstation até então, a KCET nos presenteia com Silent Hill, em 1999, dirigido por Keiichiro Toyama. O lançamento de SH é considerado por muitos o auge dos survival horrors.

A névoa de Silent Hill sempre nos deixava ansioso por um local mais seguro.

Assim, apesar de que muita coisa boa ainda tenha saído durante a transição do milênio, marcando época, como: Amnesia, Rule of Roses, Haunting Ground, as continuações da série Silent Hill, o surgimento de Fatal Frame, etc; com o tempo, o "lado escuro da força" dos games foi ficando mais fraco, justamente quando o potencial gráfico dos consoles aumentavam exponencialmente. Seria esse então o real problema? Felizmente não, se alguma coisa incomoda os fãs do gênero, esta coisa está longe de ser a potência gráfica dos consoles, afinal, muitos jogos já traziam bastante terror antes mesmo dos grandes clássicos, como é o caso de Sweet Home do NES (1989) que inclusive inspirou o primeiro jogo da franquia da Capcom (Resident Evil). O contrário também aconteceu com BioShock e Dead Space, que são jogos com gráficos de ultima geração e trazem uma boa carga de terror pela sobrevivência com pitadas de sci-fi.

Fatal Frame sempre ter um terror voltado a própria cultura nipônica.

A verdade é que os jogos de terror sempre tiveram duas tendências principais: uma mais ocidental, americanizada, e outra mais voltada ao terror oriental, inspiradas em seus filmes e pela própria cultura. Por um lado vê-se uma vertente visceral, mais focada em ação e nas habilidades de combate direto do jogador quando esses vêem corpos deformados ou monstros sedentos por sangue, dai, nessa hora, o gatilho é seu melhor amigo; por outro, vemos um terror psicológico, mais preocupado na capacidade de racionamento de itens do jogador e na resolução de quebra-cabeças, ou seja, em momentos de desespero, uma fuga é a opção mais viável ou racional. O que acontece atualmente é que esta divisão está cada vez mais escancarada, inclusive fez com que alguns jogos tradicionalmente de terror psicológico passassem para o lado ação e "explosivo" da coisa.

Há muitos fatores que possam ter causado isso, mas um dos mais claros para mim é o fato de produtoras nipônicas passarem a exportar seus games principalmente para o público western. Daí temos jogos como Resident Evil 6, que mais parece inspirados em filmes como Duro de Matar (Die Hard) do que nos clássicos de George A. Romero. Sim, de uns tempos pra cá a franquia tem mudado muito de suas raízes. Outro fator que deve ter contribuído para o crescimento do terror-ação ocidental foi a demanda do mercado, onde jogos de tiro, FPS e ação tornaram-se muito bem visto pelas produtoras, daí devem ter decidido fazer um misto disso tudo, o que deu até certo, por um curto período de tempo. Nessa época, início do século XXI, em que jogos de terror surgiam com mais ação no ocidente, jogadores se tornavam cada vez menos propensos a jogar games como RE Code Veronica ou Silent Hill 4, que traziam uma jogabilidade fraca e recursos muito limitados.

Games de terror western geralmente trazem uma forte influência de shooters, seja FPS ou em terceira pessoa. Esse é o caso de Doom 3.

Do terror western, podemos citar Resident Evil 5Left 4 Dead, F.E.A.R, Doom 3Dead Island, The Last of Us, e os já supracitados Dead Space e Bioshock. Do lado oposto, temos títulos bastante divergentes, é o caso de Fatal Frame, Alan Wake, Siren, a franquia Silent Hill, etc. Dessa maneira, fãs aficionados ao survival horror original negam o terror ocidental nos games a todo custo, como se eles não tivessem o seu valor.

O fato é que quem realmente gosta de sentir um frio na espinha, jogando sozinho, de madrugada e com fones de ouvido, realmente prefere o terror psicológico. E foi pensando nesses caras que as produtoras independentes surgiram com várias propostas interessantíssimas nos últimos anos. De cara, aponto Slender, um jogo simplista com pouco ou quase nada de enredo e que trás o espírito horripilante dos survivals orientais, trazendo a tona uma lenda urbana para dentro de um game, esse com quase nenhum potencial gráfico. O jogo foi tão bem recebido que logo os produtores criaram uma nova versão com um estúdio profissional e mais elaborado. A partir daí muitos outros independentes do gênero surgiram e surgem até hoje, como Outlast, Haunted Memories, DreadOut, etc. todos buscando a essência do medo. É óbvio que muitos deles são apenas cópias de fórmulas que fizeram sucesso, e muitas vezes só nos trás alguns sustos, nada mais.

Apesar de se focar em sustos, o game Slender traz uma jogabilidade diferente que força o jogador a não querer olhar para trás.

Porém, indie games tem o poder de trazer jogos conceituais, independentemente do que o mercado pede, e talvez esse tenha sido o motivo pelo qual as grandes empresas tenham voltado a se empenhar em públicos-alvo específicos, como é o caso dos fãs de survival horror psicológicos. E quando falo em grandes nomes eu falo sério, Hideo Kojima, o venerado criador da saga Metal Gear Solid está com o projeto ambicioso (e quais dos jogos dele não são?) junto ao cineasta Guillermo Del Toro de trazer Silent Hill as origens, pelo menos é o que mostra o P.T. (Play Teaser) lançado a pouco tempo para Ps4. Silent Hills é na verdade o nome do jogo, prometido para sair em 2015. Confira o P.T. completo, desbancado pelo nosso amigo Zangado, abaixo: (Obs.: Se você tem Ps4, jogue-o por si só, a experiência é totalmente diferente)


Além disso, temos a notícia confirmada para mais um remake de Resident Evil, o primeirão, agora totalmente remasterizado para as tecnologias atuais (gráficos em 1080p, telas no formato 4:3 e 16:9). A Capcom promete trazer dois modos de controle, um clássico e o outro mais voltado aos games de ação de hoje em dia, o qual o personagem segue para a direção pressionada do analógico. Também haverá uma versão física para colecionador (apenas no Japão). O game será lançado para Ps3, Ps4, Xbox 360, Xbox One e PC no início de 2015. Confira algumas imagens abaixo (clique para ampliar):





Se está achando pouco, ainda neste ano em outubro, teremos uma outra promessa para o survival horror: The Evil Within do Shinji Mikami, que participou da produção de games do gênero como os primeiros RE e Dino Crisis, etc. A produção está sendo por conta do estúdio Bethesda, aclamada pela produção de grandes nomes como The Elder Scrolls e Fallout 3.


Eu não sei para vocês, mas para mim isso significa dizer, não só que, teremos um próximo ano gratificante para os survivais de horror (e que estão notando a nova leva de indies de terror), mas também que, estamos voltando as origens do terror psicológico. Talvez estejamos voltando a ter aqueles games em que pouco temos em termos de armamento e munição, mas muito em relação a enredo, puzzles e trilha sonora complexa, hora silenciosa, outra hora apavorante, e que nos deixa com dores de cabeça ao mesmo tempo que tentamos superar seus desafios focados no raciocínio e não nas habilidades. E já que tudo parece estar mudando, não seria uma má ideia se saíssem outros clássicos dentro desse conceito, como Parasite Eve, Alone in the Dark... Resta-nos apenas esperar!

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